Terremotos na Venezuela: por que o número de desaparecidos continua disparando dias depois da tragédia

País vive uma das maiores crises humanitárias recentes da América do Sul, com mais de mil mortos confirmados e dezenas de milhares de pessoas ainda sem paradeiro

Mais de uma semana após dois fortes tremores atingirem a costa caribenha da Venezuela, uma dúvida segue angustiando autoridades, famílias e organismos internacionais: por que o número de desaparecidos continua subindo dia após dia, mesmo com a chegada de equipes de resgate de dezenas de países? A resposta envolve uma combinação de fatores que vai além da força dos abalos sísmicos, passando por falhas na comunicação, dificuldade de acesso às áreas atingidas e um sistema de registro de vítimas que ainda não conseguiu acompanhar a velocidade da tragédia.

Os dois terremotos principais, de magnitude 7,2 e 7,5, atingiram o país na quarta-feira (24) com poucos segundos de intervalo. Desde então, foram registradas centenas de réplicas, a mais recente delas com magnitude 4,2, que embora tenha causado apreensão entre moradores, não chegou a provocar novos danos estruturais significativos. O epicentro da destruição se concentrou no estado litorâneo de La Guaira e na capital Caracas, regiões que concentram a maior densidade populacional do país e onde o colapso de prédios residenciais e comerciais foi mais intenso.

Como a tragédia evoluiu hora após hora

Nos primeiros dias após os tremores, o cenário em La Guaira era de caos e improviso. Moradores como Nazareth Jimenez relataram aos jornais locais que passaram horas tentando cortar lajes de concreto à procura de irmãos, sobrinhos e amigos, usando martelos, ferramentas elétricas e as próprias mãos diante da demora das equipes oficiais de resgate. “Meu Deus, como vamos tirá-los daí?”, chegou a desabafar, ao mesmo tempo em que pedia ajuda ao governo e a outros países, reclamando da falta de máquinas capazes de remover estruturas colapsadas.

Esse relato não foi isolado. Boa parte das buscas nos primeiros dias foi conduzida por civis, em meio ao que moradores classificaram como resposta insuficiente do governo venezuelano, com soldados, bombeiros e policiais descritos como despreparados diante da magnitude do desastre. O governo, por sua vez, chegou a restringir o acesso à região mais atingida, numa tentativa de reduzir o trânsito e o caos que estavam atrapalhando as operações de resgate, além de decretar estado de desastre na área de La Guaira.

Conforme os dias passaram, o balanço oficial de vítimas foi sendo atualizado de forma constante e crescente. Em determinado momento, a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, confirmou que o número de mortos havia chegado a 920, enquanto o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, atualizava os dados publicamente. Pouco depois, levantamentos indicavam mais de 1.430 mortos e cerca de 69 mil pessoas desaparecidas, número que seguiu crescendo nos dias seguintes até ultrapassar a marca de 1.700 mortos, segundo balanço mais recente. Estimativas internacionais, no entanto, alertam que esse total pode ainda aumentar de forma expressiva.

Por que o número de desaparecidos é tão difícil de calcular com precisão

Um dos fatores que mais dificulta o trabalho das autoridades é justamente a contabilização confiável dos desaparecidos. Bancos de dados digitais independentes, criados pela própria sociedade civil para tentar organizar as informações, registravam dezenas de milhares de nomes, mas parte deles pode estar duplicada, já que diferentes familiares costumam reportar a mesma pessoa em plataformas distintas. Some-se a isso a falta de sinal de celular em boa parte das áreas afetadas, o que impediu durante dias o contato entre parentes e amigos, ampliando artificialmente a sensação de que o número de desaparecidos era ainda maior do que de fato é.

A Organização Internacional para as Migrações chegou a estimar que até 6,76 milhões de pessoas poderiam sofrer algum tipo de impacto direto ou indireto da tragédia, considerando deslocamentos, perda de moradia e interrupção de serviços essenciais. Já a Organização das Nações Unidas projetou que o total de desaparecidos poderia chegar à casa dos 50 mil, ao mesmo tempo em que mobilizou o envio de dez mil bolsas mortuárias ao país, numa demonstração de que o cenário ainda era considerado extremamente grave, mesmo com a expectativa de que o número final de vítimas fatais fique abaixo desse patamar.

Soma-se a esse quadro o trabalho do Serviço Geológico dos Estados Unidos, que chegou a projetar um impacto econômico devastador para a Venezuela, podendo variar entre 1% e 7% do Produto Interno Bruto do país, dependendo da extensão final dos danos. Ao menos 855 edifícios sofreram algum tipo de avaria, sendo que 189 deles desabaram por completo, segundo balanço oficial das autoridades venezuelanas, o que ajuda a explicar por que tantas famílias seguem sem notícias de parentes mais de uma semana depois da tragédia.

A resposta internacional, por sua vez, ganhou força nos dias seguintes ao desastre. Segundo a ONU, 27 países enviaram mais de 40 equipes especializadas, somando cerca de dois mil socorristas e mais de 160 cães de busca, reforço que permitiu o resgate de pessoas com vida mesmo dias após o colapso das estruturas, incluindo o caso de uma mãe que ficou soterrada ao lado do filho recém-nascido por horas e sobreviveu. O Brasil também integrou esse esforço, enviando voos humanitários com equipamentos para montar hospital de campanha, medicamentos, purificadores de água e equipes de bombeiros e da Defesa Civil, além de especialistas em telecomunicações para ajudar a restabelecer a comunicação na região mais atingida.

Diante da magnitude da tragédia, a expectativa é que o trabalho de identificação de vítimas e de cruzamento de dados sobre desaparecidos continue avançando nas próximas semanas, à medida que o acesso às áreas isoladas melhora e que mais réplicas deixam de representar risco imediato. Para a Venezuela, o desafio agora se desdobra em duas frentes: continuar resgatando quem ainda pode estar com vida sob os escombros e reconstruir, a médio prazo, uma infraestrutura que ficou seriamente comprometida em uma das regiões mais densamente povoadas do país.

Fontes: Exame, Revista Oeste e InfoMoney

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