O erro de tratar todo stakeholder da mesma forma

Written by: Caleb Winslow

Haroldo Augusto Filho observa o mesmo erro se repetir em empresas de portes diferentes: diante de uma decisão difícil, corte de área, mudança de fornecedor estratégico ou reestruturação de time, a liderança escreve uma única mensagem e a envia para todo mundo ao mesmo tempo, do investidor ao colaborador da ponta. O resultado quase sempre gera mais ruído do que clareza.

O problema não está em comunicar rápido, está em tratar públicos com interesses e níveis de exposição completamente diferentes como se fossem um só. Entenda a seguir por que esse erro é tão comum e o que muda quando a comunicação é pensada por grupo, não por mensagem única.

Por que uma mensagem única falha com públicos diferentes?

Um investidor quer entender o impacto financeiro e o prazo de recuperação. Um fornecedor quer saber se o relacionamento comercial muda. Um colaborador quer saber se o próprio cargo está em risco. Quando a mesma nota tenta responder às três perguntas ao mesmo tempo, ela normalmente falha nas três, porque cada público filtra a mensagem pela pergunta que mais importa para ele e ignora o resto.

Esse é, segundo Haroldo Augusto Filho, o ponto de partida de boa parte das crises de comunicação evitáveis: não a decisão em si, mas a forma genérica como ela chega a quem precisa entendê-la de maneiras diferentes. Um comunicado escrito para agradar todo mundo costuma não convencer ninguém, porque a linguagem neutra o suficiente para não incomodar também é vaga o suficiente para não esclarecer nada de concreto.

Como o interesse e o poder de cada grupo mudam a comunicação?

A teoria de gestão de stakeholders costuma organizar os públicos por dois eixos: o quanto cada grupo é afetado pela decisão e o quanto cada grupo pode influenciar o resultado dela. Um cliente estratégico, por exemplo, combina alto interesse e alta capacidade de reação, o que normalmente exige comunicação direta e antecipada. Já um público apenas curioso sobre o assunto pode receber a informação depois, por um canal mais genérico.

Para Haroldo Augusto Filho, ignorar essa diferença produz dois erros opostos e igualmente custosos: falar demais, cedo demais, com quem tem baixo interesse real, gerando ansiedade desnecessária, ou falar tarde demais com quem tinha alto interesse e poder de reação, o que costuma ser interpretado como falta de transparência. Na prática, os dois erros aparecem juntos com frequência: a mesma nota genérica dispara ansiedade num público que mal seria afetado e chega tarde demais para quem realmente precisava agir.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Como sequenciar a comunicação sem gerar sensação de exclusão?

Na prática, sequenciar significa decidir quem precisa saber primeiro, com que profundidade e por qual canal, antes que a informação circule de forma descontrolada. Grupos com alto poder de influência sobre o resultado da decisão, como sócios, credores estratégicos ou clientes centrais, geralmente precisam de conversa direta, não de comunicado genérico enviado por e-mail em massa.

Um exemplo comum: numa reestruturação de fornecedores, a empresa que avisa primeiro o fornecedor mais afetado, numa conversa individual, e só depois comunica o mercado de forma ampla, tende a preservar a relação. A que inverte essa ordem e deixa o fornecedor descobrir pela imprensa ou por terceiros raramente recupera o mesmo nível de confiança, mesmo que a decisão em si fosse justificável.

O maior risco dessa etapa, enfatiza Haroldo Augusto Filho, não é informar tarde demais um grupo de baixa prioridade, é deixar um público relevante descobrir a decisão por terceiros antes de ouvi-la de quem a tomou. Isso destrói a credibilidade da comunicação que vem depois, mesmo que o conteúdo dela esteja tecnicamente correto.

O que fica evidente quando esse cuidado falta?

Quando a comunicação trata todos os públicos como um só, os sintomas aparecem rápido: perguntas repetidas que a mensagem deveria ter antecipado, rumores preenchendo o espaço que a informação direta deveria ocupar, e grupos importantes reagindo com desconfiança a uma decisão que, em outro contexto, poderiam ter aceitado com naturalidade.

O cuidado de segmentar quem recebe o quê, quando e por qual canal raramente aparece nos resultados de curto prazo, mas aparece com clareza na velocidade com que a organização recupera a normalidade depois de uma decisão difícil, na visão de Haroldo Augusto Filho.

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