Marcello José Abbud destaca que programas de coleta seletiva costumam nascer com festa: faixa na praça, caminhão adesivado, campanha nas escolas. Boa parte deles desaparece sem anúncio antes de completar um ano. O caminhão passa menos, o morador percebe e desiste de separar, o material volta a se misturar, e a prefeitura arquiva a experiência como prova de que “aqui não funciona”.
As estratégias que sustentam programas longevos se repetem em cidades de portes muito diferentes, da capital ao município de vinte mil habitantes. Siga a leitura e veja que são quatro, e nenhuma exige tecnologia sofisticada: exigem sequência certa, constância e um lugar definido para o material chegar.
O bairro piloto antes da cidade inteira
A primeira estratégia contraria o instinto político de anunciar cobertura total. Programas que duram quase sempre começam por um recorte: um bairro com perfil conhecido, uma rota única, um dia fixo. O piloto funciona como laboratório barato, porque revela a taxa real de adesão, o índice de rejeito na separação e o custo por tonelada antes que qualquer erro se multiplique pela cidade inteira. Ampliar depois de acertar sai muito mais barato do que corrigir em escala.
Marcello José Abbud mostra que um piloto bem escolhido também cria a vitrine que o programa precisará depois. Quando chega a hora de expandir, o gestor negocia orçamento com números próprios, colhidos na sua cidade, em vez de projeções emprestadas de manuais. E o bairro que deu certo vira argumento ambulante: vizinhos pedem para ser os próximos, o que inverte a lógica habitual de empurrar o programa para uma população desconfiada.
Cooperativas de catadores como engrenagem do sistema, não como vitrine
A terceira estratégia resolve a pergunta que muitos programas deixam para depois: para onde vai o que foi separado? Sem galpão de triagem e sem quem processe o material, a coleta seletiva vira transporte caro de resíduos que terminam no mesmo aterro. Integrar cooperativas de catadores com contrato, remuneração pelo serviço e metas claras dá destino ao material e renda a quem já fazia esse trabalho na informalidade.
O erro simétrico também existe: tratar a cooperativa como peça de marketing, lembrada nas fotos e esquecida no orçamento. Marcello José Abbud pontua que parceria sem contrato e sem fluxo garantido de material apenas transfere para os catadores o risco que a prefeitura não quis assumir.

Comunicação que ensina o gesto, não o conceito
A quarta estratégia troca a pedagogia abstrata pela instrução concreta. Campanhas que explicam a importância da reciclagem mudam pouco; campanhas que mostram o que vai em cada saco, em que dia e em que calçada mudam comportamento. O morador não precisa ser convencido de que reciclar é bom: precisa saber, sem ambiguidade, o que fazer com a embalagem que tem na mão agora.
Funciona melhor ainda quando a informação chega por quem o morador conhece. Agente de saúde, professor, líder de associação de bairro: a mensagem repetida por rostos familiares vale mais que outdoor. Marcello José Abbud ressalta que cidades que treinam esses multiplicadores gastam menos em mídia e colhem adesão mais estável, porque a orientação continua circulando muito depois do fim da campanha.
O programa que sobrevive à troca de prefeito
Há um teste simples para saber se o programa chegou lá. Se a coleta seletiva aparece no orçamento como linha permanente, com contrato plurianual e indicadores acompanhados, ela virou política pública. Se depende de convênio pontual e do entusiasmo de um secretário, continua sendo aposta.
Reunidas, as quatro estratégias apontam para o mesmo alvo: transformar a coleta seletiva de projeto de governo em serviço público comum, tão rotineiro quanto a coleta convencional. Serviço rotineiro não se cancela por capricho eleitoral, porque a população sente a falta e cobra. O melhor indicador de sucesso, pontua Marcello José Abbud, não é a tonelagem do primeiro ano: é o programa continuar existindo, sem faixa nem festa, quando ninguém mais lembra de quem foi a ideia.